Curiosidades
Quem é a Domitila que você não vê na novela

07/08/2017

Documentos históricos mostram que a célebre amante de dom Pedro I era muito mais interessante que a personagem de Novo Mundo.

 

Personagem do imaginário popular e, agora, de Novo Mundo, a novela das 6 da Rede Globo, a marquesa de Santos, célebre amante de dom Pedro I, aos poucos deixa o rodapé da história para ganhar personalidade, ambição e protagonismo mais nítidos. A partir de arquivos pouco estudados, pesquisadores e historiadores redesenham a trajetória da paulista Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867) como uma mulher forte, independente, pragmática e de excepcional tino financeiro.

 

“Domitila era plural, muito mais que uma amante”, resume o historiador Paulo Rezzutti, que está relançando seu livro Domitila — A Verdadeira História da Marquesa de Santos, de 2013, com documentos inéditos e reveladores.

 

O mais significativo, em termos históricos, é o diário que confirma a existência do primeiro dos cinco filhos dos dois amantes, um menino sobre o qual se especulava haver nascido, mas de quem não se tinha notícia de ter sobrevivido.

 

O diário pertenceu a Theodora de Camargo Ayres, bisneta de Jesuíno do Amaral Gurgel — justamente o “fruto do pecado da independência”. Ele foi concebido na primeira noite de Pedro e Domitila, menos de um mês antes do 7 de setembro de 1822. Revela-se ali que o bebê Jesuíno foi entregue a um padre, parente e amigo da família da marquesa, que o criou e lhe deu o sobrenome.

 

O filho do imperador foi dono de mercearia, casou-se, teve filhos e, a certa altura da vida, levou uma pancada na cabeça, desenvolveu amnésia e chegou a ser internado em um hospício.

 

Outra descoberta trazida à luz no livro é o testamento de Domitila, acompanhado do inventário de seus bens. Uma lista de mais de setenta joias, além de propriedades e investimentos, indica que ela acumulou grande riqueza ao longo de seus 69 anos, boa parte dela resultado de sua convivência com o imperador.

 

É notório que dom Pedro lhe repassava generosos presentes e informações privilegiadas e que ela sabia lucrar com elas, vendendo facilidades — um hábito, como se vê, desde sempre entranhado nos bastidores do poder brasileiro. “Ao morrer, ela tinha amealhado uma fortuna equivalente nos dias de hoje a 120 milhões de reais”, calcula Rezzutti.

 

O historiador também reproduz alguns exemplares da prolixa correspondência do casal, como a carta em que dom Pedro comenta uma manobra de Domitila para evitar possíveis suspeitas de Leopoldina, a imperatriz traída: “Ela me disse que mecê lhe disse que tinha a moléstia de Lázaro”, escreveu o imperador, referindo-se à lepra, doença temidíssima na época.

 

Nascida e criada em São Paulo, Domitila casou-se aos 15 anos com o militar mineiro Felício Pinto Coelho de Mendonça. Com ele teve três filhos (um morreu ainda bebê). O marido a espancava sistematicamente e, no auge da violência, a atacou com uma faca. Ele foi preso, ela se refugiou na casa dos pais e, em uma atitude incomum no seu tempo, não sossegou enquanto não obteve a separação e a guarda dos filhos — processo difícil que acabou aprovado graças a uma mãozinha do imperador. Um ano depois do primeiro encontro dos dois, ela se mudou com a família para o Rio de Janeiro. Os familiares receberam benefícios e nomeações. O romance, inicialmente discreto, virou o assunto mais comentado do império.

 

 

A primeira noite, o primeiro filho – “Fruto do pecado da independência do Brasil”: diário achado agora confirma que Domitila engravidou logo no primeiro encontro com dom Pedro I (à esquerda), perto do 7 de setembro de 1822, e que o menino foi criado por um padre. Segundo as anotações de sua bisneta, esse padre deu a Jesuíno do Amaral Gurgel o sobrenome e também “lhe educou, fez casar e acompanhou o crescimento de seus filhos”.

 

 

Mesmo sendo criticada pelas costas e alvo constante de caricaturas e artigos injuriosos, Domitila, mulher bonita, inteligente e alegre, experimentou ascensão social meteórica na capital. Frequentava seus saraus todo mundo que era importante. No ápice da trajetória de amante imperial, foi nomeada dama de honra da pobre Leopoldina, que sofria com a situação, e ganhou o título de marquesa, o segundo degrau da nobreza brasileira.

 

Dom Pedro cuidava pessoalmente dos modos e do guarda-roupa da bela caipira paulista e lhe garantiu pensão pouco menor que a da própria imperatriz. A paixão dos dois ficou registrada em cartas não recomendáveis para menores. “Ele a amava com amor selvagem, sem conhecer limites nem regras de direito, moral ou religião. Tudo o que a Igreja proibia nos casamentos tradicionais, a que Leopoldina obedecia e representava, era vivido com ardor pelo casal”, diz a historiadora Mary Del Priore, que também pesquisou a vida da marquesa.

 

A morte da triste Leopoldina aos 29 anos agravou a reprovação da corte e do público ao romance extraconjugal. A amante nada secreta dificultou, inclusive, a busca de outra noiva na igualmente escandalizada nobreza europeia. Quando seu pedido de casamento enfim foi aceito pela princesa Amélia da Bavária, dom Pedro capitulou. Em 1829, após sete anos de intensa paixão, mandou a marquesa de volta para São Paulo. Os dois nunca mais se encontraram.

 

A empreendedora Domitila caiu de pé. Saiu do Rio com uma mesada generosa mais o dinheiro de propriedades que vendeu ao imperador. Um navio teve de ser providenciado para transportar seus pertences e escravos. Em São Paulo, casou-se — em regime de separação de bens, raríssimo na época — com o rico e poderoso brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, duas vezes governador da província, com quem teve seis filhos. À marquesa de Santos é atribuída a origem da vida cultural e social na atrasada cidade, com bailes e saraus frequentados pela fina flor da política e do meio acadêmico. Era a locomotiva social de sua época.

 

As pesquisas mostram, portanto, que a marquesa de Santos foi uma mulher especial. “Ela soube aproveitar a proximidade com o poder”, diz Rezzutti. Não se confirma a imagem de vilã sem escrúpulos com que é retratada em Novo Mundo, o que não é problema, já que se trata de obra de ficção — ao menos para quem não guarda laços familiares com a marquesa.

 

“Agora so­mos os descendentes de uma prostituta”, indigna-se Ignez de Aguiar Polidoro, parente distante do segundo casamento de Domitila. “A novela perdeu a chance de mostrar o retrato real de uma mulher à frente do seu tempo”, diz Ligia Sobral Marcondes, outra descendente. Exatos 150 anos após sua morte, a amante mais famosa do Brasil continua a causar polêmica.

Fonte: VEJA
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