Ciência & Tecnologia
Filhotes de pinguins morrem de fome na Antártica, diz estudo

16/10/2017

As mudanças climáticas na região provocaram uma expansão do gelo marinho, obrigando os pais a percorrerem distâncias maiores para conseguir alimento.

 

Milhares de filhotes de pinguins estão, literalmente, morrendo de fome na Antártica devido à expansão incomum de gelo marinho, afirmaram cientistas nesta sexta-feira. Segundo pesquisadores da ONG internacional World Wildlife Fund (WWF, na sigla em inglês) e do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS, na sigla em francês), o aumento do gelo obriga os pais a percorrerem distâncias maiores em busca de comida.

 

A pesquisa vem acompanhando uma colônia de 18.000 casais de pinguins-de-adélia no leste da Antártica desde 2010. Em sua última avaliação, os cientistas descobriram que apenas dois filhotes sobreviveram à última temporada de acasalamento, no início de 2017, enquanto esperavam seus pais voltarem com alimento. Eles atribuíram a expansão do gelo principalmente às mudanças climáticas ligadas ao rompimento da geleira Mertz, na região em que vivia a colônia. “As condições para que [o deslocamento dos pais] aconteça com mais frequência foram estabelecidas devido à quebra da geleira de Mertz, em 2010, que mudou a configuração do trecho de mar em frente à colônia”, disse o especialista em pinguins Yan Ropert-Coudert, pesquisador na base antártica Dumont D’Urville, instalada próxima ao local onde viviam os animais.

 

“Mas há outros fatores necessários para se ter um ‘ano zero’”, adiciona Ropert-Coudert, fazendo referência ao crescimento praticamente inexistente da população desses animais nesta temporada de reprodução. Segundo ele, a variação nas temperaturas, a direção e a força dos ventos e a ausência de polínias (espaços abertos de água rodeados de gelo) também obrigam os pais a percorrerem grandes distâncias para conseguir alimento.

 

 

Aquecimento global

 

É importante esclarecer que o gelo marinho, analisado no estudo em questão, é diferente do gelo antártico – este último com uma espessura de dois a cinco quilômetros e responsável pela formação de icebergs.

 

O gelo marinho é apenas a superfície do mar congelada e é bem mais fino, geralmente apresentando apenas um metro de espessura. A área ocupada por esse tipo gelo varia muito conforme a estação do ano. “A cobertura do gelo marinho pode oscilar entre dois e 20 milhões de quilômetros quadrados em apenas cinco meses”, explicou a VEJA o glaciologista brasileiro Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que não está envolvido no estudo. Isso significa que, mesmo desconsiderando a influência do aquecimento global, o ganho e perda desse tipo de gelo ocorre naturalmente ao longo do ano.

 

Por isso, o fato de que essa cobertura está se expandindo durante a temporada de acasalamento em comparação com outras estações do ano não é uma evidência de que as mudanças climáticas não influenciam as temperaturas. O aquecimento global reduz o habitat dos pinguins e aquece as àguas, diminuindo a disponibilidade de presas para os pinguins-de-adélia. E, quando chega a época do ano em que a cobertura de gelo marinho está ocupando uma área muito grande, os animais precisam se deslocar muito em relação à sua colônia (antes instalada em locais estratégicos) para conseguir entrar na água e caçar.

 

 

Pinguins

 

Com uma dieta principalmente à base de krill – crustáceo pequeno que lembra um camarão – os pinguins-de-adélia são excelentes nadadores e, em geral, prosperam na parte oriental da Antártica. Porém, de alguns anos para cá, sua população vem diminuindo cada vez mais na região.

 

Quatro anos atrás, segundo os cientistas, essa mesma colônia, que apresentava uma população de 20.196 casais de pinguins, não teve nenhum filhote sobrevivente. O gelo marinho mais grosso, combinado com um clima mais quente, provocava chuvas que eram seguidas por uma queda rápida na temperatura – isso encharcava os filhotes e fazia com que eles congelassem até a morte.

 

De acordo com Ropert-Coudert, a próxima temporada de acasalamento, em 2018, deve ser melhor – “mas nós nunca sabemos como vai ser, infelizmente”, adiciona.

Fonte: VEJA
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