Ciência & Tecnologia
EUA utilizarão mosquitos modificados contra a dengue

10/11/2017

Insetos infectados com bactéria que combate os mosquitos serão liberados em 20 estados: iniciativa semelhante é estudada no Brasil.

 

Os Estados Unidos se preparam para lançar milhões de mosquitos por 20 de seus estados e na capital, Washington D.C., de acordo com artigo publicado na revista Nature. Apelidado de tigre asiático, o Aedes albopictus é considerado mais perigoso que seu parente mais famosos por aqui, o Aegypti, com maior poder na propagação de doenças como dengue e zika.

 

Esses mosquitos, porém, não são comuns. Criados em laboratório pela start-up de biotecnologia MosquitoMate, carregam consigo uma companhia incômoda: a bactéria Wolbachia pipientis. É a primeira vez que o governo de um país autoriza a liberação dos insetos infectados em larga escala, uma decisão que pode ter impactos por aqui.

 

Ainda no laboratório, os mosquitos machos que foram infectados são separados das fêmeas. Como as meninas Aedes são as únicas que picam, elas são mortas. Os machos então são soltos na natureza, que procriam com as fêmeas selvagens. Os ovos fertilizados, porém, nunca chegam a virar mosquitos pois a bactéria atrapalha a formação dos cromossomos paternos. Assim, a população é controlada.

 

Uma estratégia semelhante foi testada no Rio de Janeiro ainda em 2015. Coordenado pela Fundação Oswaldo Cruz, a versão carioca usa a mesma bactéria, porém no Aedes aegypti. Na versão brasileira, a reprodução do mosquito não é prejudicada. O que muda é a capacidade de transmitir a doença.

 

Segundo o autor da pesquisa, Luciano Moreira, em entrevista concedida na época à BBC, esse método evita alterações no ecossistema.  “O objetivo é a substituição da população de mosquitos que eram aptos a transmitir o vírus da dengue por mosquitos que não conseguem transmitir. O nicho biológico não é mexido, os mosquitos continuam lá", explicou.

 

É justamente o extermínio em massa do inseto que preocupa os pesquisadores de outra experiência, mais ousada, aqui no país. Acabar com o Aedes aegypti pode abrir espaço para o Albopictus, mais perigoso. A polêmica do OX513 não para por aí. A sigla estranha é o nome que recebem os mosquitos criados pela empresa britânica Oxitec. No lugar de bactérias, é o próprio gene do mosquito que o diferencia dos demais. O que acontece em seguida é semelhante à versão brasileira.

 

O problema dessa abordagem é algo bem conhecido pela humanidade desde Darwin: a evolução. Todas as espécies sempre encontram formas de transpor o que tenta eliminá-las. O processo de separação entre machos e fêmeas também não é perfeito, e ninguém sabe os possíveis efeitos a longo prazo desses bichos mutantes voando por aí.

 

A favor de todas as técnicas está a eficácia. A população dos Aedes aegypti caiu em mais de 90% nas cidades em que foram testados, Jacobina e Juazeiro, na Bahia. 

 

Para ser utilizado em larga escala também aqui no Brasil, os mosquitos modificados dependem da liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Apenas a pesquisa está permitida. Existe uma indefinição em como enquadrar o produto. A aprovação pelo US Environmental Protection Agency (EPA), o equivalente americano da Anvisa, pode acelerar o processo por aqui. Já o resultado, só o tempo vai dizer.

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