Vacina da Pfizer: entenda por que o Brasil adota intervalo maior entre doses

Publicado por Tv Minas em 03/05/2021 às 18h25

Ministério da Saúde orientou estados e municípios a aplicarem a vacina com 12 semanas de intervalo. Esse, entretanto, não é o espaçamento recomendado pela fabricante.

O Ministério da Saúde começou a distribuir, nesta segunda-feira (3), 500 mil doses da vacina da Pfizer/BioNTech contra a Covid-19 às 27 unidades federativas. O número equivale a metade do total de 1 milhão de doses da vacina recebidas pelo Brasil na semana passada.

A pasta divulgou orientações aos estados e municípios para que apliquem as duas doses da vacina com 12 semanas de intervalo. Esse, entretanto, não é o intervalo recomendado pela Pfizer.

Em janeiro, a empresa afirmou que só pode garantir a eficácia da vacina se ela for dada com 21 dias de espaçamento entre as doses, conforme foi testada. O intervalo sugerido pela fabricante é o mesmo defendido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A entidade admite uma ampliação para, no máximo, até 42 dias (6 semanas).

Para justificar a orientação de 12 semanas, o Ministério da Saúde informou em nota técnica que adota o mesmo intervalo usado no Reino Unido, que ampliou o prazo com base em estudos que constataram que o imunizante confere um certo nível de proteção mesmo com apenas uma dose:

  • Um dos estudos, feito justamente no Reino Unido, apontou para 80% de efetividade da vacina na redução do risco de hospitalização com apenas uma dose em idosos de 70 anos ou mais.
  • Uma segunda pesquisa, publicada em fevereiro na revista científica "The Lancet", apontou que a vacina reduziu em 75% a transmissão do coronavírus e de 85% dos casos sintomáticos de Covid menos de um mês após a aplicação da primeira dose. Na época, os autores destacaram que os resultados davam suporte à possibilidade de adiar a segunda dose em cenário de escassez de vacinas.
  • Um terceiro estudo apontou, ainda, que a transmissão da Covid-19 cai pela metade com apenas uma dose das vacinas da Pfizer ou da AstraZeneca/Oxford.

Para a epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, atrasar a segunda dose pode ser uma boa estratégia – desde que ela esteja garantida.

"Com 80% de proteção para uma dose, pode ser uma política boa para o Brasil nesse momento, de vacinar o máximo de pessoas possível. Se for o caso de usar todas as doses e vacinar com essa proteção alta, de 80% para uma dose, poderia fazer sentido", avalia.

O Ministério da Saúde informou que disponibilizaria 500 mil das 1 milhão de doses recebidas pelo Brasil para a primeira etapa de imunização – mas não deixou claro se as outras 500 mil serão destinadas para completar o esquema vacinal ou se serão usadas em um novo grupo de primeira dose.

 

O que diz o Ministério da Saúde?

O ministério recomenda que a vacina seja dada com intervalo de 12 semanas. A pasta usou como base as recomendações do Reino Unido (veja detalhes mais abaixo).

Na nota técnica, o ministério cita estudos feitos nos Estados Unidos e Reino Unido, que apontam uma elevada efetividade após a primeira dose da vacina.

Um intervalo maior possibilita a vacinação do maior número possível de pessoas com a primeira dose e traz maiores benefícios do ponto de vista da saúde pública, argumenta a pasta.

O ministério explica que os dados epidemiológicos e de efetividade da vacina serão monitorados e que a recomendação pode ser revista. “Em cenários de maior disponibilidade da vacina, o intervalo recomendado em bula [21 dias] poderá ser utilizado”, completa a pasta.

 

O que diz a Pfizer?

Em janeiro, depois que o Reino Unido decidiu aplicar a vacina com 12 semanas de intervalo entre as doses, a Pfizer alertou que não poderia garantir a eficácia de seu imunizante com este intervalo.

O G1 entrou em contato com a Pfizer Brasil questionando os seguintes pontos à farmacêutica:

  • Qual intervalo a Pfizer considera mais adequado para aplicação das duas doses da vacina? 3 ou 12 semanas?
  • Considerando o cenário de falta de vacinas, a farmacêutica considera aceitável aplicar o imunizante com 12 semanas de diferença?
  • Se aplicada com 12 semanas, a vacina perde eficácia? A empresa garante resultados semelhantes aos vistos nos testes para este intervalo?

A assessoria da empresa no Brasil afirmou que entraria em contato quando tivesse um posicionamento da Pfizer global, mas, até a mais recente atualização desta reportagem, ainda não havia respondido aos questionamentos.

 

O que diz a bula?

A bula da farmacêutica, disponibilizada no site da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), orienta um intervalo maior ou igual a 21 dias (de preferência 3 semanas) entre a primeira e a segunda dose.

O documento alerta que a pessoa vacinada "pode não estar protegida até pelo menos 7 dias após a segunda dose da vacina".

 

O que diz a OMS?

Em uma sessão de "perguntas e respostas" em sua página on-line, atualizada no dia 20 de abril, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que as doses sejam dadas com um intervalo de 21 a 28 dias.

"Pesquisas adicionais são necessárias para entender a proteção potencial de longo prazo após uma única dose", afirma a entidade.

Segundo a OMS, um "efeito protetor" da vacina "começa a se desenvolver 12 dias após a primeira dose, mas a proteção total requer duas doses".

Em um manual divulgado em janeiro, entretanto, com orientações iniciais de como aplicar a vacina logo após a sua aprovação, a OMS recomendou que o intervalo entre as doses poderia ser estendido até 42 dias (6 semanas).

"Se houver dados adicionais disponíveis sobre intervalos mais longos entre as doses, será considerada a revisão desta recomendação", disse a entidade. O documento também considerava as restrições no fornecimento de vacinas enfrentadas por vários países:

"Os países que vivenciam circunstâncias epidemiológicas excepcionais podem considerar adiar por um curto período a administração da segunda dose como uma abordagem pragmática para maximizar o número de indivíduos que se beneficiam com a primeira dose, enquanto o fornecimento da vacina continua a aumentar. A recomendação da OMS no momento é que o intervalo entre as doses pode ser estendido até 42 dias (6 semanas), com base nos dados de ensaios clínicos atualmente disponíveis", dizia o texto, que ainda está disponível on-line.

 

Como a aplicação é feita em outros países?

  • Reino Unido

A recomendação é que a vacina seja dada em um intervalo mínimo de 21 dias.

Em seu manual de orientação sobre as vacinas, o governo britânico observa, entretanto, que, "operacionalmente, é recomendado que um intervalo consistente seja usado para todas as vacinas para evitar confusão e simplificar o registro".

Por isso, o documento pontua que "um cronograma de cerca de 12 semanas está sendo seguido para permitir que mais pessoas se beneficiem da proteção fornecida com a primeira dose durante a fase de implantação. A proteção de longo prazo será então fornecida pela segunda dose".

Segundo o manual, se um intervalo maior do que o recomendado for deixado entre as doses, a segunda dose ainda deve ser dada (de preferência usando a mesma vacina da primeira dose, se possível). Não é necessário reiniciar a vacinação.

 

  • Estados Unidos

O Centro de Controle de Doenças (CDC, na sigla em inglês) recomenda um intervalo de 21 dias entre as doses.

 

  • Israel

A vacina é dada com espaçamento de 3 semanas (21 dias) entre as doses.

 

  • Alemanha

O Comitê Permanente de Vacinação do Instituto Robert Koch, responsável por monitorar a pandemia e a vacinação na Alemanha, recomenda um intervalo de 6 semanas entre as doses das vacinas de RNA (tanto a da Pfizer quanto a da Moderna).

Infográfico mostra como funcionam vacinas de RNA contra o coronavírus — Foto: Anderson Cattai/Arte G1Infográfico mostra como funcionam vacinas de RNA contra o coronavírus.
Fonte: G1

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