Fome aumenta e doações despencam: antigos doadores hoje pedem uma cesta básica

Publicado por Tv Minas em 07/04/2021 às 11h37

Com o avanço da crise sanitária, novas pessoas passaram a precisar de auxílio para fazer suas refeições.

No galpão da Ação da Cidadania, na Gamboa, 600 cestas básicas se perdem num imenso espaço diante da escassez de doações. Quase ao mesmo tempo, a pouco mais de um quilômetro dali, havia uma fila com dezenas de pessoas que se aglomeram, em tempos de pandemia, em frente à Biblioteca Parque, na Avenida Presidente Vargas. O motivo não é a procura por livros, mas a busca por quentinhas distribuídas, na hora do almoço, pelo governo do estado.

Nos 28 anos, que se completa este mês, à frente de campanhas contra a fome, a Ação Cidadania constatou que a ajuda de alimentos minguou. Se no ano passado foram distribuídas 80 mil cestas por mês, a campanha agora só consegue 8 mil a cada 30 dias.

Presidente do Conselho da Ação da Cidadania, Daniel de Souza, de 55 anos, convoca a sociedade civil a fazer doações para a compra de alimentos. Ele, que toca o legado do pai, o sociólogo Herbert de Souza, na luta contra a fome, prevê que, ao fim da pandemia, quando as pessoas já estiverem vacinadas, a fome se intensifique ainda mais, por conta do desemprego.

A queda na arrecadação de doações e alimentos se deve ao cansaço da população pelo longo período de isolamento imposto pela pandemia, além de outros fatores:

"Existe cansaço, crise e desesperança. A redução é percebida por todas as ações de combate à fome. Chama a atenção o caso de pessoas que antes eram doadores e, atualmente, pedem uma cesta básica. O empobrecimento é geral. São empresas fechando, pessoas desempregadas, gente morrendo. O que tem mantido as nossas doações é a fidelização por parte de empresários. Hoje mesmo (terça-feira), o empresário Roberto Medina nos procurou para saber como pode ajudar. A Latam está levando as cestas básicas para todos os estados e a Vale do Rio Doce está disponibilizando os trens. É isso, a locomotiva não pode parar", explica Souza.

 

Distribuição de cestas básicas e lançamento de livro em SP

Em São Paulo, o G10 Favelas (iniciativa formada por líderes das 10 maiores comunidades do país, que juntas movimentam R$ 7 bilhões por ano) distribuiu, na terça-feira, 2 mil cestas básicas a famílias carentes, principalmente às mais afetadas pela pandemia. Mulheres que perderam seus empregos com a crise causada pelo coronavírus e sustentam a família ou homens que precisam escolher entre pagar o aluguel e comprar remédio para os filhos estão entre os que vêm recebendo auxílio por meio do movimento #PanelasVazias. A iniciativa teve início há um mês, segundo Gilson Rodrigues, presidente do G10, quando a rede compreendeu que o agravamento da crise afetava ainda mais quem já passava dificuldade.

"Percebemos também que as pessoas passaram a se acostumar com o normal de que falta comida na mesa. É o Brasil do home office e o Brasil da fome. (Como não saem de casa), as pessoas não estão enxergando a fome. Antes conseguíamos preparar cerca de 10 mil marmitas por dia, hoje não passamos de 700. As doações caíram drasticamente", lamenta Rodrigues.

Com objetivo de chamar atenção para um outro grupo fortemente afetado pela pandemia, os moradores de rua, a ONG SP Invisível lançou o livro "A pandemia que ninguém vê". Reunindo 100 relatos de pessoas que não puderam parar seus trabalhos por serem considerados essenciais — do médico da linha de frente aos catadores de recicláveis — a ideia é que o dinheiro arrecadado com a venda dos exemplares possa auxiliar moradores de rua.

"O dinheiro arrecadado contribui para dar visibilidade à população de rua. Já vendemos 1.500 livros, só restam 1 mil. São histórias que agregam muito para nossas vidas", afirma André Soler, criador do livro e fundador da SP Invisível.

 

Cariocas percorrem grandes distâncias por um prato de comida

O retrato da fome pode ser observado no rosto de homens, mulheres e crianças que, diariamente,  aguardam a refeição oferecida pelo programa "Rj Alimenta", da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, em parceria com a Fundação Leão XIII. A ação atende desde agosto do ano passado as pessoas que mais sofreram os impactos da pandemia. De acordo com a secretaria, o projeto, previsto para acabar em fevereiro de 2021, teve que ser estendido. Segundo o estado,  já foram distribuídas 1,2 milhões de refeições no espaço da Biblioteca Parque.

Perto dali, no Largo da Carioca, outra longa fila de pessoas em busca de uma quentinha, também todos os dias. Neste ponto, a distribuição fica por conta do Serviço Franciscano e Solidariedade (Sefras).

O perfil de quem tem fome é o mesmo: desempregados ou pessoas que viviam da informalidade, mas que ficaram sem poder trabalhar por conta das medidas restritivas impostas pela pandemia. Como o auxílio-emergencial estava suspenso, as filas aumentaram.

A situação de pandemia tá levando muita gente ao desespero. Vejo aqui não só pessoa em situação de rua que vem buscar refeição, mas gente que não tem opção. Têm pessoas de favelas que acabam se mudando para as ruas para poder ficar mais próximas das entregas de comida — afirma Rosa Filho, enquanto esperava sua vez para pegar uma das mil refeições.

Fonte: O GLOBO

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