Conar investiga propaganda enganosa de suplementos feita por padres

Publicado por Tv Minas em 14/02/2021 às 12h12

Idosos são público alvo da publicidade veiculada em canais religiosos na TV. Consumidores reclamam de ineficácia dos produtos.

Entre um Pai Nosso e uma Ave Maria, apresentadores interrompem a programação para vender terços, imagens sacras e suplementos vitamínicos. A cena é comum em canais religiosos que veiculam missas e programas de entretenimento, como a Rede Vida. Em alguns programas, os próprios líderes religiosos ingerem a cápsula diretamente dos estúdios de televisão para convencer os telespectadores da eficácia dos produtos, parte deles com eficácia questionada pela ciência.

Está em andamento no Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) procedimento para investigar esse tipo de prática. O padre cantor Alessandro é um dos garotos-propaganda de suplementos na Rede Vida. No decorrer do programa, ele paralisa seu show musical e convida ao palco uma mulher chamada Verena, para apresentar suplementos da marca Eleve. “Traz um copo d’água para mim que eu vou tomar um desse. Todo mundo vai tomar isso aqui”, diz, ao ingerir cápsula de um polivitamínico.

A representante, em seguida, apresenta o produto Condroleve, que, segundo ela, é recomendado para “dores nas juntas”. Após a fala de Verena, uma mulher dá seu depoimento e diz que melhorou da artrose e está se sentindo “superbem” e voltou a fazer caminhadas. Afirma também que não toma mais nenhum medicamento depois de ingerir o suplemento.

Em outro programa, na mesma emissora, depois de tomar uma pílula de vitaminas acompanhada de um copo d’água, o ex-padre Dalcides Biscalquin, que abandonou a batina para se casar e atualmente apresenta o Escolhas da Vida, na Rede Vida, diz: “Eu quero que você passe a usar todos os dias o Condroleve”. Na tela, aparecem números de telefone e avisos sobre a possibilidade de parcelar a compra em até 10x. Um frasco custa R$ 199.

Em seguida, entram no ar depoimentos de idosos que supostamente se beneficiaram do suplemento vendido pela marca Eleve. “Se foi bom para mim, vai ser bom para os outros”, diz uma mulher. Depois, um homem identificado como Carlos Dal Bem dá o seu depoimento sobre as melhoras em sua saúde graças ao Condroleve.

Segundo seu perfil em redes sociais, Carlos Dal Bem, 65 anos, é “modelo e figurante em comerciais de TV, fotografia e novelas”. Ele também já representou o porteiro de uma casa de show para octogenárias em um comercial do Mercedes VITO.

Carlos admite que não conhecia o produto quando gravou o depoimento e afirma que recebeu um cachê. “Agências me chamam para comerciais, já fiz novela, fotos publicitárias, propaganda de banco. Quando dei o depoimento para o Condroleve, eu não conhecia, mas eles me deram umas amostras e depois passei a tomar. Nunca mais tive dor nas costas”, garante.

Em maio do ano passado, o Conar processou e condenou a empresa responsável pela venda do Condroleve – que na ação aparece como Elleven Suplementos – por fazer propaganda enganosa do produto em um canal de televisão.

A Representação nº 023/20 traz o seguinte: “Ainda que seja um suplemento alimentar, o produto denominado Condroleve, de responsabilidade da Elleven Suplementos Alimentares, é apregoado em publicidade veiculada em TV como solução para numerosas afecções, como artrite, tendinite e inflamações. A denúncia foi enviada ao Conar por um consumidor”.

Em sua defesa, a empresa afirmou que o produto é um suplemento alimentar. Pontuou ainda que considera não haver promessa de cura na peça publicitária. “A relatora não aceitou estas e outras alegações da defesa. Segundo ela, não há comprovação dos benefícios ou propriedades funcionais do produto, tampouco conformidade às diretrizes da Anvisa para a comunicação de suplementos alimentares. Por estas razões, recomendou a sustação da veiculação do anúncio, agravada por advertência à anunciante. Seu voto foi aceito por unanimidade”, traz o parecer da conselheira do Conar Valéria Sombra.

Além das emissoras religiosas, como a Rede Vida e a TV Aparecida, SBT, Rede TV! e RBI TV também veiculam anúncios da Eleve, como a empresa se apresenta atualmente.

O Condroleve não é o único suplemento anunciado pela fabricante em programas de TV. Outro carro-chefe da marca é o Lever, indicado pelo fabricante para o tratamento de problemas de vista, como catarata. A fórmula do produto leva luteína, zeaxantina com vitaminas e minerais.

“Trata-se de propaganda enganosa. Esses suplementos são vendidos como se fossem a solução de todos os problemas. Quem compra joga dinheiro no lixo. Para catarata e glaucoma, por exemplo, o efeito disso é zero. Existe um estudo chamado AREDS-2 que constatou a eficácia de determinadas substâncias, nas dosagens certas, no tratamento de degeneração de mácula em estágio mais avançado. Mas no Brasil não existe essa formulação em um único comprimido”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, Márcio Motta.

O médico alerta que é preciso ter cuidado com a ingestão de suplementos vitamínicos, pois o excesso dessas substâncias no corpo pode resultar em outras enfermidades. “As hipervitaminoses também causam doenças. Vitamina A em excesso, por exemplo, pode dar problema no periósteo (o envoltório dos ossos) e aumentar a pressão intracraniana”, descreve.

“Vitaminas têm de ser ingeridas através da alimentação balanceada, com legumes e verduras. A falta de vitamina faz mal, mas com uma alimentação equilibrada quase todo mundo consegue ter níveis normais”, afirma Motta.

O especialista sugere que o órgão responsável por regular anúncios publicitários faça uma consulta junto aos conselhos de medicina para checar quais produtos são eficazes. “As sociedades de medicina não têm poder de polícia, podem apenas comunicar aos órgãos oficiais que aquilo ali é uma propaganda enganosa.”

 

Reclamações

Na página da Eleve no Facebook, há clientes insatisfeitos com os resultados prometidos com aval dos líderes religiosos. “Minha mãe foi enganada. Chegou uma mercadoria no valor de mais de R$ 3 mil reais. Ela é uma pessoa de 82 anos, com problemas de audição e semianalfabeta, mas não vai ficar assim. Procuramos um advogado”, reclamou André Luís. A reportagem entrou em contato com o filho da idosa, e ele afirmou que o problema já teve solução.

Adriana Bernardo Peixoto, 46 anos, de São Paulo, denuncia que a mãe dela teve um prejuízo de R$ 4 mil com cobranças indevidas da Eleve. “Minha mãe é idosa, tem 77 anos, e adora rezar o terço pela TV Aparecida, assistir missa. No meio da oração entram esses anúncios de suplemento e ela compra para pagar em 12 vezes no boleto. Acontece que cobraram duplicado e tivemos que ameaçar entrar na Justiça para eles resolverem o problema”, afirma.

A mãe de Adriana, que pediu para não ter o nome mencionado, tem problemas de visão e usa o suplemento Lever. “Ela toma há seis meses e não houve qualquer resultado. Fui pesquisar e encontrei dezenas de pessoas com a mesma reclamação, a maioria são pessoas idosas que caem nessa farsa”, diz Adriana.

“Acho uma vergonha lucrar em cima de idosos que vivem com salário mínimo… Meu pai caiu neste golpe, idoso, ingênuo, está pagando 12 x R$ 180 por esse produto… Maior enganação, não caiam nessa. Gostam de veicular as propagandas nos canais que os idosos mais assistem… Cuidado!”, alertou Maximiliano Weissheimer, no Facebook.

Em resposta aos comentários, o perfil da empresa no Facebook respondeu: “Não são medicamentos, e sim suplementos alimentares, existem variações da resposta à suplementação devido a diferença genética das pessoas, além do estilo de vida e alimentação. Por isso, não podemos afirmar em quanto tempo verá resultados nem garantir que trate, cure ou previna doenças, mas a maioria dos nossos mais de 90 mil clientes teve bons resultados”. (Leia nota enviada pelo departamento jurídico da empresa, no fim da matéria).

No site Reclame Aqui, também há relatos de idosos que se sentiram enganados.

 

Religião e propaganda

Em seu site, a Rede Vida informa que está presente em 100% do território nacional, gratuitamente via TV aberta, com potencial de alcance de mais de 120 milhões de telespectadores. “Toda programação também é transmitida em tempo real, na internet, através do site, aplicativo oficial, das redes sociais e do Youtube.”

Do público do canal religioso, 76,86% são mulheres, 61,28% pertencem à classe C, 82,02% têm mais de 50 anos.

Uma inserção de 30 segundos no canal, segundo a tabela anunciada, custa R$ 8.900, entre as 6h e as 12h. Das 12h às 18h, o valor sobre para R$ 19.180, e das 18h às 24h, para R$ 27.400.

O Metrópoles enviou pedidos de informação à Rede Vida, à TV Aparecida e à Confederação Nacional dos Bispos (CNBB), mas não teve resposta até a publicação desta reportagem.

 

Posicionamento

O departamento jurídico da Eleve Suplementos Alimentares enviou a seguinte nota ao Metrópoles:

“Diante de questionamentos efetivados, a Eleve Suplementos vem a público informar que nossos produtos são devidamente registrados nos órgãos competentes, bem como são observadas todas as normas pertinentes a eles.

• Nossos produtos são considerados suplementos alimentares, e como ocorre com todo e qualquer suplemento alimentar, produzido por qualquer empresa, estes possuem como finalidade complementar a dieta das pessoas com os nutrientes necessários para que possuam uma vida saudável.

• Nesta toada, cumpre salientar que no Brasil existem grandes empresas que atuam na produção e comercialização de suplementos alimentares, tendo em vista ser produto lícito e regulamentado, como por exemplo Rainha Nutracêuticos, Grow Dietary Supplements, WiseHealth Nutritions, e Top Therm, empresa esta nacionalmente conhecida, com efusiva participação na mídia televisiva. E a mesma situação acontece no restante do mundo, com grandes empresas atuando neste mercado, o que se dá, obviamente, em razão da necessidade que as pessoas possuem de, com a devida orientação, suplementarem sua dieta.

• Como qualquer empresa que atua neste ramo, e em qualquer outro, a Eleve Suplementos divulga seus produtos na mídia, bem como os benefícios que estes conferem às pessoas.

• As publicidades dos produtos da Eleve Suplementos visam, acima de tudo, informar ao consumidor, observando todas as normas pertinentes a eles, e jamais indicaram ou referendaram que os referidos produtos consistiriam isoladamente em cura para alguma doença, pois não se trata de medicamentos, mas, como dito, de suplementos alimentares.

• Neste quadro, as publicidades dos produtos da Eleve Suplementos, como toda e qualquer publicidade veiculada em nosso país por qualquer empresa, de quaisquer atividades, é analisada pelo Conar, que vem a ser o conselho de autorregulamentação publicitária. Referido conselho em nenhum instante trata, ainda que genericamente, a publicidade de suplementos alimentares efetivada pela Eleve Suplementos ou por qualquer outra empresa do ramo como algo irregular, mas, pelo contrário, atua justamente para que eventuais discrepâncias sejam corrigidas.

A Eleve Suplementos sempre respondeu a todas as solicitações do Conar, e, quando entendeu pertinente, até para reafirmar a transparência e lisura com que sempre atuou, ajustou sua publicidade para que inexistisse qualquer possibilidade de equívoco do consumidor, que é aquele a quem a Eleve Suplementos sempre buscou atender com qualidade, segurança e transparência.

Cumpre reiterar que a Eleve Suplementos é uma empresa séria e que preserva os valores da transparência e da ética, pelo que externamos novamente nosso compromisso com o bem-estar de seus consumidores, sempre procurando, com nossos produtos, conferir a estes uma melhor qualidade de vida.”

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Fonte: Metrópoles

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