Brasileira morre de fome e sede na travessia da fronteira entre México e EUA

Publicado por Tv Minas em 17/09/2021 às 14h50

Em série de gravações, técnica de enfermagem relata seu desespero para sobreviver sozinha, sem água e comida, em meio ao deserto.

O corpo de uma brasileira de 50 anos foi encontrado nesta quarta-feira por uma patrulha norte-americana numa área desértica ao Sul de Deming, uma cidade do Novo México, nos Estados Unidos. Segundo o escritório do xerife do condado de Luna, havia com ela um passaporte que a identificava como Lenilda dos Santos. Os investigadores disseram ao portal de notícias "Deming Headlight" que ela tinha tentado entrar no país de forma ilegal. Lenilda era técnica em enfermagem e vivia em Vale do Paraíso, em Rondônia. Lenilda, que havia se separado grupo que atravessava a fronteira com ela,  provavelmente morreu de sede e fome.

De acordo com o escritório do xerife, a mulher havia ligado a seus parentes que vivem em Massachusetts, avisando que havia sido deixada para trás pelo grupo e, sem água e comida, estava com medo de morrer. Relatos à polícia indicam que Lenilda compartilhou sua localização com eles, mas a família demorou três dias para entrar em contato com a polícia. No entanto, parentes que moram no Brasil dizem que tentaram buscar ajuda imediatamente, entrando em contato com advogados e brasileiros nos EUA. Segundo eles, Lenilda teria sido abandonada pelos parceiros do trajeto ao passar mal devido ao calor do deserto.

O capitão Michael Brown mostrou-se surpreso pelo que aconteceu.

— Esta é uma das situações mais tristes que já vi — disse o policial.

Uma das pessoas contatadas pela família de Lenilda foi o brasileiro Kleber Vilanova, morador de Ohio, cuja empresa atua na área de imigração. Ele disse que a mulher carregava um aparelho celular que ainda estava com um chip do Brasil e tinha pouco crédito. Foi assim que conseguiu enviar seu último pedido por socorro.

— Nesse telefone, ela conseguiu força suficiente para poder mandar a localização para um parente no Brasil. Ela enviou áudios, que são terríveis, falando que estava morrendo de sede, que não estava aguentando. A família começou a agir imediatamente — relatou Kleber, explicando ter sido procurado no último fim de semana.

Técnica de enfermagem, Lenilda Oliveira morreu na última quarta-feira (15), enquanto tentava atravessar o deserto entre o México e Estados Unidos.

O empresário contou que a polícia realizou várias buscas, sejam aéreas ou pelo solo, mas custou bastante a encontrá-la. Por ter convicção que Lenilda não havia conseguido escapar do deserto, Kleber afirmou ter reforçado seus pedidos à patrulha por novas operações de resgate.

— Ela começou a ficar desidratada, a passar muito mal e não conseguiria continuar. O que aconteceu foi que os supostos amigos dela, junto com o "coiote", simplesmente a abandonaram lá. Ela ficou  sozinha no meio do deserto e eles continuaram a caminhada.

A localização da brasileira foi difícil de ser descoberta, pois ela estava numa região ampla de deserto, com a residência mais próxima a 400 metros de distância. Além disso, ela vestia uma roupa camuflada para dificultar a visão da polícia. A escolha desse tipo de vestimenta é comum entre imigrantes ilegais.

— Isso é algo que vemos continuamente — contou Brown, lamentando a atuação dos traficantes de pessoas na região, por buscarem "maneiras de ganhar dinheiro às custas de vidas humanas".

Áudios enviados por Lenilda à família e a amigos durante a travessia, mostram que, apesar do cansaço, da sede e da frustração por ter sucumbido às próprias limitações físicas nos quilômetros finais, ela mostrava confiança de que os companheiros de grupo, que a deixaram para trás, voltariam para socorrê-la de alguma forma. Nas gravações é possível notar que, enquanto espera socorro, Lenilda oscila momentos em que parece mais confiante e outros em que a voz, mais fraca, entrega que ela já estava à beira da exaustão.

“Eu dormi aqui, não aguentei. Estou sozinha, mas eles estão vindo me buscar, pode ficar de boa”, informou ao irmão no último áudio que enviou por celular para ele, no dia 7 deste mês, um dia depois de ter sido abandonada.

Em outros momentos, para tranquilizar a família, ela resssaltava que faltava pouco para realizar seu sonho de chegar a solo americano.  “Eu já estou chegando, já, faltando pouquinho para chegar e eu não aguentei (…) Mas estou bem, eles estão vindo me buscar".

“Eu esperei até 11 horas, mas ninguém veio. Eu peguei e saí do lugar”, avisa. Desesperada e já mostrando estar desidratada, a técnica de enfermagem pede para que a família entre em contato com as pessoas do grupo e que avisem onde ela está, para que levem água:

“Eu estou escondida. Manda ela trazer uma água para mim, porque não estou aguentando de sede”.

Lenilda Oliveira, de 49 anos, morreu ao tentar entrar nos EUA Foto: ReproduçãoLenilda Oliveira morreu na última quarta-feira (15), enquanto tentava atravessar o deserto entre o México e Estados Unidos.

Lenilda ainda insiste em tentar detalhar sua localização, mas também sem sucesso:

“Deixa eu te falar, eu vim direto, atravessei a cerca e vim direto. Não tem erro. Eu estava debaixo daquela rede de internet, de energia; atravessei a cerca e vim direto, reto”.

Em uma gravação, com voz desfalecida, Lenilda dá sinais de que esta muito cansada:

“Andei um pouquinho para trás, ele mandou eu parar”. Nesse momento, a família acredita que ela quis dizer que não voltou no percurso em busca de algum lugar teoricamente mais seguro justamente porque o coiote que liderava o grupo teria dito para que ela ficasse ali, parada, e os esperasse, mas eles não voltaram para buscá-la.

Fonte: O Globo

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