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Bem Estar

Síndrome do ninho vazio: o impacto da saída dos filhos da casa dos pais

Publicado por TV Minas em 20/05/2018

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Apesar de sentir-se realizada ao ver a única filha casar e estruturar uma nova vida, Hebe desmoronou quando se viu sozinha em casa, em 2017.

 

"Quando eu falava dela, sentia uma vontade incontrolável de chorar. A razão dizia que eu precisava construir novos laços, mas o sentimento era de não querer conversar com outras pessoas", conta Hebe, hoje com 52 anos e viúva há 13.

 

Formada em Economia, ela trabalha como bancária há 29 anos em Jundiaí (SP). Apesar de gostar do trabalho, não conseguia lidar com a solidão e sentiu dificuldades para recriar a rotina, agora voltada para si e não mais para a filha Ana Carolina.

 

"É difícil não ter mais uma pessoa para cuidar e conversar. Eu não fazia muita coisa sozinha, a maioria do meu tempo era para ela, com ela e por ela", diz Hebe. "Ela tinha atividades durante o dia, mas a gente sempre conversava quando ela chegava em casa, mesmo que fosse tarde da noite. Eu não ficava totalmente sozinha."

 

Após a saída da filha, Hebe começou a apresentar sintomas depressivos: só saía de casa para trabalhar e visitar os pais, sentia dores intensas no corpo e vontade constante de chorar.

 

Em abril de 2018, após 11 meses, Hebe decidiu buscar uma psicóloga e foi diagnosticada com a síndrome do ninho vazio (SNV), caracterizada pelo sofrimento dos pais após o esvaziamento da casa pela saída dos filhos.

 

"Abri mão das minhas coisas pensando apenas nela. A gente se apega e acaba se esquecendo um pouco da gente", afirma.

 

Apesar de não se arrepender da dedicação à filha, Hebe hoje reconhece a importância de buscar outras atividades de seu interesse e de construir si mesma em outros papéis além da maternidade.

 

"Se eu já tivesse feito isso antes dela sair, talvez não sentisse tanto essa ausência. Não é largar os filhos, mas criar vida além deles."

 

 

Francisca de Oliveira Pereira aproveitou o tempo sozinha para estudar e virar professora voluntária.

 

 

Se antes esperava convites para sair de casa, agora Hebe busca viver de outra maneira. "Chorava a ausência dela e pensava que alguém poderia me convidar para sair. Agora não fico mais lamentando e tento convidar as pessoas", conta.

 

Hoje, Hebe acompanha Ana Carolina por telefone e nos almoços de fins de semana. Apesar de ainda sentir falta da filha, ela considera que o contato não se perde: apenas se transforma. "Os filhos precisam seguir o caminho deles e nós que temos que buscar o nosso, sem a presença deles tão constante."

 

 

Dificuldades para diagnosticar

 

Segundo a psicóloga Adriana Sartori, mestra no tema pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a síndrome do ninho vazio (SNV) começa como uma tristeza leve e pode evoluir até a depressão.

 

"Só se pode falar em SNV quando esse sofrimento se estende por mais de seis meses e impossibilita os pais de continuarem sua rotina com o mesmo prazer que tinham antes dos filhos saírem", explica a psicóloga.

 

Ela afirma que há poucos estudos sobre o tema no Brasil e que a síndrome é difícil de ser diagnosticada, pois costuma ocorrer simultaneamente a outros processos desafiadores - como a aposentadoria, o envelhecimento e o adoecimento dos próprios pais.

 

Outro fator que dificulta o diagnóstico é a falta de um prognóstico adequado que investigue os fatores emocionais por trás dos sintomas físicos comumente apresentados por pacientes com a SNV, como cansaço e dores musculares extremas.

 

"As políticas públicas de saúde no Brasil enxergam tudo separadamente. Sem verificar se há um ninho vazio, o tratamento para um quadro depressivo pode ser ineficiente e o paciente voltará", avalia Sartori.

 

Em sua pesquisa de mestrado, a psicóloga conversou com muitos pais que acabaram buscando em casas de bingo um conforto para a solidão do ninho vazio e constatou que, quanto mais intensa a SNV, mais graves serão os sintomas de vício em jogo.

 

 

Há casais que se fortalecem após a saída dos filhos de casa.

 

 

"Se um pai ou uma mãe já tiver dificuldades prévias de controlar os impulsos, o esvaziamento da casa aumenta o risco de eles desenvolverem outros transtornos de impulsividade, como a cleptomania, a automutilação e o consumo intenso de comidas ou álcool", afirma a pesquisadora.

 

 

Diferença entre gêneros

 

Ainda que as mulheres tenham conseguido maior inserção no mercado de trabalho nas últimas décadas no Brasil e tenham outras responsabilidades além da criação dos filhos, a síndrome do ninho vazio ainda é mais frequente entre as mães.

 

"Hoje, é comum encontrarmos pacientes homens falando do 'vazio' após a saída dos filhos. Mas as mulheres ainda são mais atingidas pela síndrome por passarem mais tempo do que eles na criação dos filhos e manutenção da casa", argumenta Sartori.

 

Segundo dados do IBGE, em 2016 as mulheres dedicavam uma média de 18 horas semanais a cuidados de pessoas ou afazeres domésticos, 73% a mais do que os homens (10,5 horas).

 

A psicóloga explica que a menopausa é outro fator que diferencia o impacto da SNV entre homens e mulheres. "Quando elas ocorrem simultaneamente, a síndrome intensifica sintomas negativos da menopausa, como ansiedade, cansaço, depressão e alterações na libido, memória e humor."

 

 

Preparar a saída

 

O sofrimento causado pela SNV não se relaciona somente à saudade e a solidão dos filhos, mas também à falta de preparação prévia dos pais para essa fase da vida.

 

 

Sensação de vazio no lar dá nome à síndrome, mas é possível se preparar para evitá-la.

 

 

"A prevenção é sempre o melhor remédio. As pessoas precisam começar a se preparar para essa fase e buscar outras vivências além dos filhos: sair com amigos, praticar atividades físicas, estudar, viajar. Falta de saúde social também faz adoecer", afirma Sartori.

 

Ela diz que o esvaziamento da casa pode ter impactos diferentes sobre o casamento dos pais dependendo da maneira como eles construíram a relação.

 

"Não é difícil haver divórcios nessa fase porque muitos não suportam a pressão de se ver frente a frente com o parceiro. Perderam a intimidade, não sabem o que o outro gosta e só se enxergam como pai e mãe. Tudo isso faz o casamento perder sentido."

 

Ela aponta, porém, que há também casais que se fortalecem e usam o tempo antes dedicado ao filhos para buscar novas atividades juntos. Foi isso o que aconteceu com a aposentada Francisca de Oliveira Pereira, de 74 anos.

 

"Quando ficamos só nós dois, os horários começaram a se alinhar e tínhamos mais tempo juntos, inclusive para namorar", lembra Francisca, viúva desde 2015.

 

Antes disso, porém, a cada vez que um filho saía de casa para estudar ou trabalhar em outra cidade, ela se trancava no banheiro para chorar escondida. Quando o último filho saiu, Francisca decidiu voltar a estudar. Primeiro, concluiu o ensino médio e depois, aos 45 anos, cursou quatro anos de magistério.

 

"Fui estudar para suprir a falta deles. Foi bom porque eu tinha uma ocupação e melhorei meu português", conta ela, que usou sua nova formação para passar dois anos como professora voluntária em um curso de alfabetização de jovens e adultos em sua cidade, Presidente Epitácio (SP).

Apesar de sentir-se realizada ao ver a única filha casar e estruturar uma nova vida, Hebe desmoronou quando se viu sozinha em casa, em 2017.


 


"Quando eu falava dela, sentia uma vontade incontrolável de chorar. A razão dizia que eu precisava construir novos laços, mas o sentimento era de não querer conversar com outras pessoas", conta Hebe, hoje com 52 anos e viúva há 13.


 


Formada em Economia, ela trabalha como bancária há 29 anos em Jundiaí (SP). Apesar de gostar do trabalho, não conseguia lidar com a solidão e sentiu dificuldades para recriar a rotina, agora voltada para si e não mais para a filha Ana Carolina.


 


"É difícil não ter mais uma pessoa para cuidar e conversar. Eu não fazia muita coisa sozinha, a maioria do meu tempo era para ela, com ela e por ela", diz Hebe. "Ela tinha atividades durante o dia, mas a gente sempre conversava quando ela chegava em casa, mesmo que fosse tarde da noite. Eu não ficava totalmente sozinha."


 


Após a saída da filha, Hebe começou a apresentar sintomas depressivos: só saía de casa para trabalhar e visitar os pais, sentia dores intensas no corpo e vontade constante de chorar.


 


Em abril de 2018, após 11 meses, Hebe decidiu buscar uma psicóloga e foi diagnosticada com a síndrome do ninho vazio (SNV), caracterizada pelo sofrimento dos pais após o esvaziamento da casa pela saída dos filhos.


 


"Abri mão das minhas coisas pensando apenas nela. A gente se apega e acaba se esquecendo um pouco da gente", afirma.


 


Apesar de não se arrepender da dedicação à filha, Hebe hoje reconhece a importância de buscar outras atividades de seu interesse e de construir si mesma em outros papéis além da maternidade.


 


"Se eu já tivesse feito isso antes dela sair, talvez não sentisse tanto essa ausência. Não é largar os filhos, mas criar vida além deles."


 


 



Francisca de Oliveira Pereira aproveitou o tempo sozinha para estudar e virar professora voluntária.


 


 


Se antes esperava convites para sair de casa, agora Hebe busca viver de outra maneira. "Chorava a ausência dela e pensava que alguém poderia me convidar para sair. Agora não fico mais lamentando e tento convidar as pessoas", conta.


 


Hoje, Hebe acompanha Ana Carolina por telefone e nos almoços de fins de semana. Apesar de ainda sentir falta da filha, ela considera que o contato não se perde: apenas se transforma. "Os filhos precisam seguir o caminho deles e nós que temos que buscar o nosso, sem a presença deles tão constante."


 


 


Dificuldades para diagnosticar


 


Segundo a psicóloga Adriana Sartori, mestra no tema pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a síndrome do ninho vazio (SNV) começa como uma tristeza leve e pode evoluir até a depressão.


 


"Só se pode falar em SNV quando esse sofrimento se estende por mais de seis meses e impossibilita os pais de continuarem sua rotina com o mesmo prazer que tinham antes dos filhos saírem", explica a psicóloga.


 


Ela afirma que há poucos estudos sobre o tema no Brasil e que a síndrome é difícil de ser diagnosticada, pois costuma ocorrer simultaneamente a outros processos desafiadores - como a aposentadoria, o envelhecimento e o adoecimento dos próprios pais.


 


Outro fator que dificulta o diagnóstico é a falta de um prognóstico adequado que investigue os fatores emocionais por trás dos sintomas físicos comumente apresentados por pacientes com a SNV, como cansaço e dores musculares extremas.


 


"As políticas públicas de saúde no Brasil enxergam tudo separadamente. Sem verificar se há um ninho vazio, o tratamento para um quadro depressivo pode ser ineficiente e o paciente voltará", avalia Sartori.


 


Em sua pesquisa de mestrado, a psicóloga conversou com muitos pais que acabaram buscando em casas de bingo um conforto para a solidão do ninho vazio e constatou que, quanto mais intensa a SNV, mais graves serão os sintomas de vício em jogo.


PATROCINADORES

 


 



Há casais que se fortalecem após a saída dos filhos de casa.


 


 


"Se um pai ou uma mãe já tiver dificuldades prévias de controlar os impulsos, o esvaziamento da casa aumenta o risco de eles desenvolverem outros transtornos de impulsividade, como a cleptomania, a automutilação e o consumo intenso de comidas ou álcool", afirma a pesquisadora.


 


 


Diferença entre gêneros


 


Ainda que as mulheres tenham conseguido maior inserção no mercado de trabalho nas últimas décadas no Brasil e tenham outras responsabilidades além da criação dos filhos, a síndrome do ninho vazio ainda é mais frequente entre as mães.


 


"Hoje, é comum encontrarmos pacientes homens falando do 'vazio' após a saída dos filhos. Mas as mulheres ainda são mais atingidas pela síndrome por passarem mais tempo do que eles na criação dos filhos e manutenção da casa", argumenta Sartori.


 


Segundo dados do IBGE, em 2016 as mulheres dedicavam uma média de 18 horas semanais a cuidados de pessoas ou afazeres domésticos, 73% a mais do que os homens (10,5 horas).


 


A psicóloga explica que a menopausa é outro fator que diferencia o impacto da SNV entre homens e mulheres. "Quando elas ocorrem simultaneamente, a síndrome intensifica sintomas negativos da menopausa, como ansiedade, cansaço, depressão e alterações na libido, memória e humor."


 


 


Preparar a saída


 


O sofrimento causado pela SNV não se relaciona somente à saudade e a solidão dos filhos, mas também à falta de preparação prévia dos pais para essa fase da vida.


 


 



Sensação de vazio no lar dá nome à síndrome, mas é possível se preparar para evitá-la.


 


 


"A prevenção é sempre o melhor remédio. As pessoas precisam começar a se preparar para essa fase e buscar outras vivências além dos filhos: sair com amigos, praticar atividades físicas, estudar, viajar. Falta de saúde social também faz adoecer", afirma Sartori.


 


Ela diz que o esvaziamento da casa pode ter impactos diferentes sobre o casamento dos pais dependendo da maneira como eles construíram a relação.


 


"Não é difícil haver divórcios nessa fase porque muitos não suportam a pressão de se ver frente a frente com o parceiro. Perderam a intimidade, não sabem o que o outro gosta e só se enxergam como pai e mãe. Tudo isso faz o casamento perder sentido."


 


Ela aponta, porém, que há também casais que se fortalecem e usam o tempo antes dedicado ao filhos para buscar novas atividades juntos. Foi isso o que aconteceu com a aposentada Francisca de Oliveira Pereira, de 74 anos.


 


"Quando ficamos só nós dois, os horários começaram a se alinhar e tínhamos mais tempo juntos, inclusive para namorar", lembra Francisca, viúva desde 2015.


 


Antes disso, porém, a cada vez que um filho saía de casa para estudar ou trabalhar em outra cidade, ela se trancava no banheiro para chorar escondida. Quando o último filho saiu, Francisca decidiu voltar a estudar. Primeiro, concluiu o ensino médio e depois, aos 45 anos, cursou quatro anos de magistério.


 


"Fui estudar para suprir a falta deles. Foi bom porque eu tinha uma ocupação e melhorei meu português", conta ela, que usou sua nova formação para passar dois anos como professora voluntária em um curso de alfabetização de jovens e adultos em sua cidade, Presidente Epitácio (SP).


Apesar de sentir-se realizada ao ver a única filha casar e estruturar uma nova vida, Hebe desmoronou quando se viu sozinha em casa, em 2017.



"Quando eu falava dela, sentia uma vontade incontrolável de chorar. A razão dizia que eu precisava construir novos laços, mas o sentimento era de não querer conversar com outras pessoas", conta Hebe, hoje com 52 anos e viúva há 13.



Formada em Economia, ela trabalha como bancária há 29 anos em Jundiaí (SP). Apesar de gostar do trabalho, não conseguia lidar com a solidão e sentiu dificuldades para recriar a rotina, agora voltada para si e não mais para a filha Ana Carolina.



"É difícil não ter mais uma pessoa para cuidar e conversar. Eu não fazia muita coisa sozinha, a maioria do meu tempo era para ela, com ela e por ela", diz Hebe. "Ela tinha atividades durante o dia, mas a gente sempre conversava quando ela chegava em casa, mesmo que fosse tarde da noite. Eu não ficava totalmente sozinha."



Após a saída da filha, Hebe começou a apresentar sintomas depressivos: só saía de casa para trabalhar e visitar os pais, sentia dores intensas no corpo e vontade constante de chorar.



Em abril de 2018, após 11 meses, Hebe decidiu buscar uma psicóloga e foi diagnosticada com a síndrome do ninho vazio (SNV), caracterizada pelo sofrimento dos pais após o esvaziamento da casa pela saída dos filhos.



"Abri mão das minhas coisas pensando apenas nela. A gente se apega e acaba se esquecendo um pouco da gente", afirma.



Apesar de não se arrepender da dedicação à filha, Hebe hoje reconhece a importância de buscar outras atividades de seu interesse e de construir si mesma em outros papéis além da maternidade.



"Se eu já tivesse feito isso antes dela sair, talvez não sentisse tanto essa ausência. Não é largar os filhos, mas criar vida além deles."





Francisca de Oliveira Pereira aproveitou o tempo sozinha para estudar e virar professora voluntária.



Se antes esperava convites para sair de casa, agora Hebe busca viver de outra maneira. "Chorava a ausência dela e pensava que alguém poderia me convidar para sair. Agora não fico mais lamentando e tento convidar as pessoas", conta.



Hoje, Hebe acompanha Ana Carolina por telefone e nos almoços de fins de semana. Apesar de ainda sentir falta da filha, ela considera que o contato não se perde: apenas se transforma. "Os filhos precisam seguir o caminho deles e nós que temos que buscar o nosso, sem a presença deles tão constante."



PATROCINADORES

Dificuldades para diagnosticar



Segundo a psicóloga Adriana Sartori, mestra no tema pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), a síndrome do ninho vazio (SNV) começa como uma tristeza leve e pode evoluir até a depressão.



"Só se pode falar em SNV quando esse sofrimento se estende por mais de seis meses e impossibilita os pais de continuarem sua rotina com o mesmo prazer que tinham antes dos filhos saírem", explica a psicóloga.



Ela afirma que há poucos estudos sobre o tema no Brasil e que a síndrome é difícil de ser diagnosticada, pois costuma ocorrer simultaneamente a outros processos desafiadores - como a aposentadoria, o envelhecimento e o adoecimento dos próprios pais.



Outro fator que dificulta o diagnóstico é a falta de um prognóstico adequado que investigue os fatores emocionais por trás dos sintomas físicos comumente apresentados por pacientes com a SNV, como cansaço e dores musculares extremas.



"As políticas públicas de saúde no Brasil enxergam tudo separadamente. Sem verificar se há um ninho vazio, o tratamento para um quadro depressivo pode ser ineficiente e o paciente voltará", avalia Sartori.



Em sua pesquisa de mestrado, a psicóloga conversou com muitos pais que acabaram buscando em casas de bingo um conforto para a solidão do ninho vazio e constatou que, quanto mais intensa a SNV, mais graves serão os sintomas de vício em jogo.





Há casais que se fortalecem após a saída dos filhos de casa.



"Se um pai ou uma mãe já tiver dificuldades prévias de controlar os impulsos, o esvaziamento da casa aumenta o risco de eles desenvolverem outros transtornos de impulsividade, como a cleptomania, a automutilação e o consumo intenso de comidas ou álcool", afirma a pesquisadora.



Diferença entre gêneros



Ainda que as mulheres tenham conseguido maior inserção no mercado de trabalho nas últimas décadas no Brasil e tenham outras responsabilidades além da criação dos filhos, a síndrome do ninho vazio ainda é mais frequente entre as mães.



PATROCINADORES

"Hoje, é comum encontrarmos pacientes homens falando do 'vazio' após a saída dos filhos. Mas as mulheres ainda são mais atingidas pela síndrome por passarem mais tempo do que eles na criação dos filhos e manutenção da casa", argumenta Sartori.



Segundo dados do IBGE, em 2016 as mulheres dedicavam uma média de 18 horas semanais a cuidados de pessoas ou afazeres domésticos, 73% a mais do que os homens (10,5 horas).



A psicóloga explica que a menopausa é outro fator que diferencia o impacto da SNV entre homens e mulheres. "Quando elas ocorrem simultaneamente, a síndrome intensifica sintomas negativos da menopausa, como ansiedade, cansaço, depressão e alterações na libido, memória e humor."



Preparar a saída



O sofrimento causado pela SNV não se relaciona somente à saudade e a solidão dos filhos, mas também à falta de preparação prévia dos pais para essa fase da vida.





Sensação de vazio no lar dá nome à síndrome, mas é possível se preparar para evitá-la.



"A prevenção é sempre o melhor remédio. As pessoas precisam começar a se preparar para essa fase e buscar outras vivências além dos filhos: sair com amigos, praticar atividades físicas, estudar, viajar. Falta de saúde social também faz adoecer", afirma Sartori.



Ela diz que o esvaziamento da casa pode ter impactos diferentes sobre o casamento dos pais dependendo da maneira como eles construíram a relação.



"Não é difícil haver divórcios nessa fase porque muitos não suportam a pressão de se ver frente a frente com o parceiro. Perderam a intimidade, não sabem o que o outro gosta e só se enxergam como pai e mãe. Tudo isso faz o casamento perder sentido."



Ela aponta, porém, que há também casais que se fortalecem e usam o tempo antes dedicado ao filhos para buscar novas atividades juntos. Foi isso o que aconteceu com a aposentada Francisca de Oliveira Pereira, de 74 anos.



"Quando ficamos só nós dois, os horários começaram a se alinhar e tínhamos mais tempo juntos, inclusive para namorar", lembra Francisca, viúva desde 2015.



Antes disso, porém, a cada vez que um filho saía de casa para estudar ou trabalhar em outra cidade, ela se trancava no banheiro para chorar escondida. Quando o último filho saiu, Francisca decidiu voltar a estudar. Primeiro, concluiu o ensino médio e depois, aos 45 anos, cursou quatro anos de magistério.



"Fui estudar para suprir a falta deles. Foi bom porque eu tinha uma ocupação e melhorei meu português", conta ela, que usou sua nova formação para passar dois anos como professora voluntária em um curso de alfabetização de jovens e adultos em sua cidade, Presidente Epitácio (SP).



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