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Renan Calheiros atravessa escândalos e é favorito para presidir Senado

Publicado por TV Minas em 13/01/2019

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Senador sobreviveu a todos os governos desde Collor e já acena para Jair Bolsonaro.

 

O Brasil mudou muito nas últimas três décadas, mas uma coisa é certa: Renan Calheiros (MDB), hoje senador por Alagoas, sempre esteve no centro do poder. Mesmo com o nome mergulhado em processos, entre eles da Operação Lava-Jato, Renan não só conseguiu ser um dos poucos da sua geração a se salvar da onda de renovação, reelegendo-se para o quarto mandato na Casa Legislativa. Agora, é cotado como favorito à presidência do Senado, cargo que ocupou por quatro vezes, e acena aproximação com o governo de Jair Bolsonaro (PSL).

 

O cacique já esteve ao lado de Fernando Collor de Mello (então PRN), Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT). Ironicamente, só não manteve boa relação com Michel Temer, também do MDB. “Jamais se pode ser presidente de um poder sem conversar com o presidente da República. Isso é elementar. A hora em que ele (Bolsonaro) me chamar, eu vou”, disse, em entrevista ao jornal O Globo na sexta-feira. No fim do ano, em artigo no seu site, escreveu que “quer ajudar o novo governo”, embora tenha apoiado a pré-candidatura de Lula e feito campanha para Fernando Haddad (PT).

 

“É o modus do MDB, que aprendeu a racionalizar como se manter no poder, conseguindo identificar o ponto de pular do barco e o ponto de entrar no barco”, afirma o doutor em ciências políticas Ranulfo Paranhos, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Desde que chegou ao Congresso Nacional, em 1982, quando eleito deputado federal por Alagoas, Renan sempre esteve no primeiro escalão da política e vem depurando como poucos a habilidade de se manter nele, independentemente das circunstâncias.


Nos bastidores, a conta é de que ele teria cerca de 50 votos dos 81 parlamentares. A decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, de manter a votação ao comando do Senado secreta foi comemorada por Renan. “A Constituição democrática não pode ser mudada na goela ou na canetada”, escreveu no Twitter. Juntos com Renan, estão na disputa os senadores Major Olímpio (PSL), Simone Tebet (MDB-MS), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Davi Acolumbre (DEM-AP), Alvaro Dias (Podemos-PR) e Esperidião Amin (PP-SC).

 

 

Articulação

 

Embora não assuma a candidatura oficialmente, pois a definição do candidato pelo partido está marcada para dia 31, Renan está trabalhando em torno de seu nome à presidência desde a reeleição, em outubro, quando conquistou 621,5 mil votos, ficando com a segunda vaga ao Senado. Ele conseguiu se safar do ranço dos eleitores em torno da “velha política” e se manter no cargo, diferentemente de vários de seus colegas, como Romero Jucá (MDB-RR), Edison Lobão (MDB-MA) e Garibaldi Alves (MDB-RN).

 

A façanha foi alcançada apesar dos oito processos em tramitação contra ele no STF e demais investigações que o mantêm no alvo da Justiça, incluindo a Lava-Jato. “Existem duas estratégias básicas quando você tem muitos holofotes. Ou você procura as sombras e tenta não aparecer na mídia, para que a Justiça não se sinta na obrigação veloz para dar uma resposta, ou você ocupa o centro do poder, para ajudar a fazer defesa. Renan optou pela estratégia número 2”, diz Paranhos.

 

Apesar das denúncias contra ele, Renan acabou beneficiado em Alagoas pelo fato de seu herdeiro biológico e político, o governador de Alagoas Renan Filho (MDB), que acabou se reelegendo para comandar o estado, ter feito uma gestão sem grandes escândalos. “Mesmo com a crise, ele conseguiu construir estradas, fazer pequenos reparos e acabou bem avaliado”, conta Paranhos.

 

Também se valeu da boa penetração do MDB nas prefeituras de Alagoas. “Mais de 70% dos prefeitos apoiavam Renan e conseguiram dar uma base de sustentação. Renan também tem uma relação de camaradagem com as pessoas e é uma figura que, no trato pessoal, passa credibilidade”, ressalta.

 

 

Processos

 

Ao longo das décadas, Renan conseguiu pular de “barco em barco” e foi dos poucos caciques a não naufragar (veja linha do tempo). Também tem passado imune pelos processos dos quais foi alvo. O ex-deputado Eduardo Cunha, que presidiu a Câmara dos Deputados no mesmo período, por exemplo, está preso desde 2016 por causa da Lava-Jato.


Em 2007, Renan chegou a renunciar à presidência do Senado para evitar a cassação do mandato. Primeiro, foi acusado de ter despesas pagas por lobista da construtora Mendes Júnior, que bancava as contas de relacionamento extraconjugal do senador. Depois, de comprar rádios e um jornal de Alagoas em nome de laranjas.


Em 2016, foi temporariamente afastado da presidência do Senado pelo STF por causa do processo relacionado ao caso extraconjungal, no qual acabou absolvido no ano passado. Em um dos processos envolvendo o senador, a Lava-Jato apontou envolvimento de Renan com o recebimento de mais de R$ 1 milhão em propina no esquema da Guerra dos Portos, além de lavagem de dinheiro.


O senador também esteve em meio a polêmicas que envolvem empresas-fantasma, uso de avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para ir a festas e outras tantas já arquivadas. Mesmo depois das denúncias, conseguiu se reeleger mais duas vezes presidente do Senado e agora, no início de seu quarto mandato, volta a ser tratado como forte candidato ao comando da Casa legislativa, onde pode completar 32 anos de atividade parlamentar.

 

 

Linha do Tempo - Renan Calheiros – Um highlander da política brasileira

 

1978

Aos 23 anos, é eleito deputado estadual em Alagoas pelo MDB, partido de oposição ao regime militar. Era opositor do prefeito de Maceió, Fernando Collor, a quem se referia como “prefeito sem cheiro de voto e de povo” e “príncipe herdeiro da corrupção”.

 

1989

Deputado federal e filiado ao PRN, Renan assume a assessoria da campanha do então candidato à Presidência Fernando Collor de Melo (PRN), eleito com 42,7% dos votos.

 

1990

Renan era líder de governo na Câmara e foi um dos que anunciaram o Plano Collor, reforma econômica para controlar o aumento da inflação que confiscou as poupanças.

 

1992

Depois de perder a eleição ao governo de Alagoas e romper com Collor, Renan se torna um dos articuladores do impeachment, acusando o tesoureiro Paulo César Farias de criar “governo paralelo”. Desde então, voltaram a se aliar e a romper novamente, agora, quando Collor entrou na disputa pelo governo de Alagoas, concorrendo com Renanzinho.

 

1994

No governo Itamar Franco (1992-1994), o político assumiu cargo de confiança na Petrobras e atuou mais nos bastidores, até retomar o protagonismo no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).

 

1998

Então senador pelo PMDB, Renan toma posse como ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC).

 

2002

Nas eleições de 2002, passa a ser aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nos governos do PT, o alagoano, natural de Murici, presidiu o Senado por quatro vezes.

 

2007

Renan renuncia à presidência do Senado para evitar a cassação. Ele foi acusado de ser sócio, por meio de laranjas, de duas rádios e um jornal de Alagoas e também de ter despesas de “relacionamento extraconjugal” pagas por um lobista da Mendes Júnior.

 

2013

Retorna à presidência do Senado para cumprir seu quarto mandato como presidente.

 

2015

Um delator da Operação Lava-Jato afirma, em março, que Renan recebeu propina em contratos da Petrobras. Relação com a presidente Dilma fica estremecida, mas, em agosto, o senador propõe a Agenda Brasil, série de medidas para tirar o país da crise.

 

2016

No comando do Senado, Renan vota pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT). Entretanto, contribuiu para que senadores rejeitassem a inabilitação da ex-presidente, que manteve o direito de assumir cargos públicos depois do afastamento. Em dezembro, ele é denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro na Operação Lava-Jato. Ele teria recebido propina no esquema conhecido como “Guerra dos Portos”. No mesmo mês, o STF o afasta da presidência do Senado. A decisão é revista em plenário e ele se mantém no cargo, mas sai da linha sucessória do Palácio do Planalto.

 

2017

Renan foi condenado por “enriquecimento ilícito” e “vantagem patrimonial” pela 14ª Vara Federal de Brasília. Caso se relaciona ao pagamento de pensão em um relacionamento extraconjugal. Ele consegue absolvição no ano seguinte.

 

2018

Com 621,5 mil votos, o senador é reeleito em outubro para seu quarto mandato. Ele ficou com a segunda vaga à Casa Legislativa, atrás de Rodrigo Cunha (PSDB), que teve 895,7 mil votos. Em novembro, nas investigações da Operação Lava-Jato, a Polícia Federal aponta que 3 milhões de dólares em contas na Suíça estariam ligadas a Renan.

Senador sobreviveu a todos os governos desde Collor e já acena para Jair Bolsonaro.


 


O Brasil mudou muito nas últimas três décadas, mas uma coisa é certa: Renan Calheiros (MDB), hoje senador por Alagoas, sempre esteve no centro do poder. Mesmo com o nome mergulhado em processos, entre eles da Operação Lava-Jato, Renan não só conseguiu ser um dos poucos da sua geração a se salvar da onda de renovação, reelegendo-se para o quarto mandato na Casa Legislativa. Agora, é cotado como favorito à presidência do Senado, cargo que ocupou por quatro vezes, e acena aproximação com o governo de Jair Bolsonaro (PSL).


 


O cacique já esteve ao lado de Fernando Collor de Mello (então PRN), Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT). Ironicamente, só não manteve boa relação com Michel Temer, também do MDB. “Jamais se pode ser presidente de um poder sem conversar com o presidente da República. Isso é elementar. A hora em que ele (Bolsonaro) me chamar, eu vou”, disse, em entrevista ao jornal O Globo na sexta-feira. No fim do ano, em artigo no seu site, escreveu que “quer ajudar o novo governo”, embora tenha apoiado a pré-candidatura de Lula e feito campanha para Fernando Haddad (PT).


 


“É o modus do MDB, que aprendeu a racionalizar como se manter no poder, conseguindo identificar o ponto de pular do barco e o ponto de entrar no barco”, afirma o doutor em ciências políticas Ranulfo Paranhos, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Desde que chegou ao Congresso Nacional, em 1982, quando eleito deputado federal por Alagoas, Renan sempre esteve no primeiro escalão da política e vem depurando como poucos a habilidade de se manter nele, independentemente das circunstâncias.



Nos bastidores, a conta é de que ele teria cerca de 50 votos dos 81 parlamentares. A decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, de manter a votação ao comando do Senado secreta foi comemorada por Renan. “A Constituição democrática não pode ser mudada na goela ou na canetada”, escreveu no Twitter. Juntos com Renan, estão na disputa os senadores Major Olímpio (PSL), Simone Tebet (MDB-MS), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Davi Acolumbre (DEM-AP), Alvaro Dias (Podemos-PR) e Esperidião Amin (PP-SC).


 


 


Articulação


 


Embora não assuma a candidatura oficialmente, pois a definição do candidato pelo partido está marcada para dia 31, Renan está trabalhando em torno de seu nome à presidência desde a reeleição, em outubro, quando conquistou 621,5 mil votos, ficando com a segunda vaga ao Senado. Ele conseguiu se safar do ranço dos eleitores em torno da “velha política” e se manter no cargo, diferentemente de vários de seus colegas, como Romero Jucá (MDB-RR), Edison Lobão (MDB-MA) e Garibaldi Alves (MDB-RN).


 


A façanha foi alcançada apesar dos oito processos em tramitação contra ele no STF e demais investigações que o mantêm no alvo da Justiça, incluindo a Lava-Jato. “Existem duas estratégias básicas quando você tem muitos holofotes. Ou você procura as sombras e tenta não aparecer na mídia, para que a Justiça não se sinta na obrigação veloz para dar uma resposta, ou você ocupa o centro do poder, para ajudar a fazer defesa. Renan optou pela estratégia número 2”, diz Paranhos.


 


Apesar das denúncias contra ele, Renan acabou beneficiado em Alagoas pelo fato de seu herdeiro biológico e político, o governador de Alagoas Renan Filho (MDB), que acabou se reelegendo para comandar o estado, ter feito uma gestão sem grandes escândalos. “Mesmo com a crise, ele conseguiu construir estradas, fazer pequenos reparos e acabou bem avaliado”, conta Paranhos.


 


Também se valeu da boa penetração do MDB nas prefeituras de Alagoas. “Mais de 70% dos prefeitos apoiavam Renan e conseguiram dar uma base de sustentação. Renan também tem uma relação de camaradagem com as pessoas e é uma figura que, no trato pessoal, passa credibilidade”, ressalta.


 


 


Processos


 


Ao longo das décadas, Renan conseguiu pular de “barco em barco” e foi dos poucos caciques a não naufragar (veja linha do tempo). Também tem passado imune pelos processos dos quais foi alvo. O ex-deputado Eduardo Cunha, que presidiu a Câmara dos Deputados no mesmo período, por exemplo, está preso desde 2016 por causa da Lava-Jato.



Em 2007, Renan chegou a renunciar à presidência do Senado para evitar a cassação do mandato. Primeiro, foi acusado de ter despesas pagas por lobista da construtora Mendes Júnior, que bancava as contas de relacionamento extraconjugal do senador. Depois, de comprar rádios e um jornal de Alagoas em nome de laranjas.



Em 2016, foi temporariamente afastado da presidência do Senado pelo STF por causa do processo relacionado ao caso extraconjungal, no qual acabou absolvido no ano passado. Em um dos processos envolvendo o senador, a Lava-Jato apontou envolvimento de Renan com o recebimento de mais de R$ 1 milhão em propina no esquema da Guerra dos Portos, além de lavagem de dinheiro.



O senador também esteve em meio a polêmicas que envolvem empresas-fantasma, uso de avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para ir a festas e outras tantas já arquivadas. Mesmo depois das denúncias, conseguiu se reeleger mais duas vezes presidente do Senado e agora, no início de seu quarto mandato, volta a ser tratado como forte candidato ao comando da Casa legislativa, onde pode completar 32 anos de atividade parlamentar.


 


 


Linha do Tempo - Renan Calheiros – Um highlander da política brasileira


 


1978


Aos 23 anos, é eleito deputado estadual em Alagoas pelo MDB, partido de oposição ao regime militar. Era opositor do prefeito de Maceió, Fernando Collor, a quem se referia como “prefeito sem cheiro de voto e de povo” e “príncipe herdeiro da corrupção”.


 


PATROCINADORES

1989


Deputado federal e filiado ao PRN, Renan assume a assessoria da campanha do então candidato à Presidência Fernando Collor de Melo (PRN), eleito com 42,7% dos votos.


 


1990


Renan era líder de governo na Câmara e foi um dos que anunciaram o Plano Collor, reforma econômica para controlar o aumento da inflação que confiscou as poupanças.


 


1992


Depois de perder a eleição ao governo de Alagoas e romper com Collor, Renan se torna um dos articuladores do impeachment, acusando o tesoureiro Paulo César Farias de criar “governo paralelo”. Desde então, voltaram a se aliar e a romper novamente, agora, quando Collor entrou na disputa pelo governo de Alagoas, concorrendo com Renanzinho.


 


1994


No governo Itamar Franco (1992-1994), o político assumiu cargo de confiança na Petrobras e atuou mais nos bastidores, até retomar o protagonismo no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).


 


1998


Então senador pelo PMDB, Renan toma posse como ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC).


 


2002


Nas eleições de 2002, passa a ser aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nos governos do PT, o alagoano, natural de Murici, presidiu o Senado por quatro vezes.


 


2007


Renan renuncia à presidência do Senado para evitar a cassação. Ele foi acusado de ser sócio, por meio de laranjas, de duas rádios e um jornal de Alagoas e também de ter despesas de “relacionamento extraconjugal” pagas por um lobista da Mendes Júnior.


 


2013


Retorna à presidência do Senado para cumprir seu quarto mandato como presidente.


 


2015


Um delator da Operação Lava-Jato afirma, em março, que Renan recebeu propina em contratos da Petrobras. Relação com a presidente Dilma fica estremecida, mas, em agosto, o senador propõe a Agenda Brasil, série de medidas para tirar o país da crise.


 


2016


No comando do Senado, Renan vota pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT). Entretanto, contribuiu para que senadores rejeitassem a inabilitação da ex-presidente, que manteve o direito de assumir cargos públicos depois do afastamento. Em dezembro, ele é denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro na Operação Lava-Jato. Ele teria recebido propina no esquema conhecido como “Guerra dos Portos”. No mesmo mês, o STF o afasta da presidência do Senado. A decisão é revista em plenário e ele se mantém no cargo, mas sai da linha sucessória do Palácio do Planalto.


 


2017


Renan foi condenado por “enriquecimento ilícito” e “vantagem patrimonial” pela 14ª Vara Federal de Brasília. Caso se relaciona ao pagamento de pensão em um relacionamento extraconjugal. Ele consegue absolvição no ano seguinte.


 


2018


Com 621,5 mil votos, o senador é reeleito em outubro para seu quarto mandato. Ele ficou com a segunda vaga à Casa Legislativa, atrás de Rodrigo Cunha (PSDB), que teve 895,7 mil votos. Em novembro, nas investigações da Operação Lava-Jato, a Polícia Federal aponta que 3 milhões de dólares em contas na Suíça estariam ligadas a Renan.


Senador sobreviveu a todos os governos desde Collor e já acena para Jair Bolsonaro.



O Brasil mudou muito nas últimas três décadas, mas uma coisa é certa: Renan Calheiros (MDB), hoje senador por Alagoas, sempre esteve no centro do poder. Mesmo com o nome mergulhado em processos, entre eles da Operação Lava-Jato, Renan não só conseguiu ser um dos poucos da sua geração a se salvar da onda de renovação, reelegendo-se para o quarto mandato na Casa Legislativa. Agora, é cotado como favorito à presidência do Senado, cargo que ocupou por quatro vezes, e acena aproximação com o governo de Jair Bolsonaro (PSL).



O cacique já esteve ao lado de Fernando Collor de Mello (então PRN), Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT). Ironicamente, só não manteve boa relação com Michel Temer, também do MDB. “Jamais se pode ser presidente de um poder sem conversar com o presidente da República. Isso é elementar. A hora em que ele (Bolsonaro) me chamar, eu vou”, disse, em entrevista ao jornal O Globo na sexta-feira. No fim do ano, em artigo no seu site, escreveu que “quer ajudar o novo governo”, embora tenha apoiado a pré-candidatura de Lula e feito campanha para Fernando Haddad (PT).



“É o modus do MDB, que aprendeu a racionalizar como se manter no poder, conseguindo identificar o ponto de pular do barco e o ponto de entrar no barco”, afirma o doutor em ciências políticas Ranulfo Paranhos, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal). Desde que chegou ao Congresso Nacional, em 1982, quando eleito deputado federal por Alagoas, Renan sempre esteve no primeiro escalão da política e vem depurando como poucos a habilidade de se manter nele, independentemente das circunstâncias.




Nos bastidores, a conta é de que ele teria cerca de 50 votos dos 81 parlamentares. A decisão do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, de manter a votação ao comando do Senado secreta foi comemorada por Renan. “A Constituição democrática não pode ser mudada na goela ou na canetada”, escreveu no Twitter. Juntos com Renan, estão na disputa os senadores Major Olímpio (PSL), Simone Tebet (MDB-MS), Tasso Jereissati (PSDB-CE), Davi Acolumbre (DEM-AP), Alvaro Dias (Podemos-PR) e Esperidião Amin (PP-SC).



Articulação



Embora não assuma a candidatura oficialmente, pois a definição do candidato pelo partido está marcada para dia 31, Renan está trabalhando em torno de seu nome à presidência desde a reeleição, em outubro, quando conquistou 621,5 mil votos, ficando com a segunda vaga ao Senado. Ele conseguiu se safar do ranço dos eleitores em torno da “velha política” e se manter no cargo, diferentemente de vários de seus colegas, como Romero Jucá (MDB-RR), Edison Lobão (MDB-MA) e Garibaldi Alves (MDB-RN).



A façanha foi alcançada apesar dos oito processos em tramitação contra ele no STF e demais investigações que o mantêm no alvo da Justiça, incluindo a Lava-Jato. “Existem duas estratégias básicas quando você tem muitos holofotes. Ou você procura as sombras e tenta não aparecer na mídia, para que a Justiça não se sinta na obrigação veloz para dar uma resposta, ou você ocupa o centro do poder, para ajudar a fazer defesa. Renan optou pela estratégia número 2”, diz Paranhos.



Apesar das denúncias contra ele, Renan acabou beneficiado em Alagoas pelo fato de seu herdeiro biológico e político, o governador de Alagoas Renan Filho (MDB), que acabou se reelegendo para comandar o estado, ter feito uma gestão sem grandes escândalos. “Mesmo com a crise, ele conseguiu construir estradas, fazer pequenos reparos e acabou bem avaliado”, conta Paranhos.



Também se valeu da boa penetração do MDB nas prefeituras de Alagoas. “Mais de 70% dos prefeitos apoiavam Renan e conseguiram dar uma base de sustentação. Renan também tem uma relação de camaradagem com as pessoas e é uma figura que, no trato pessoal, passa credibilidade”, ressalta.



Processos



PATROCINADORES

Ao longo das décadas, Renan conseguiu pular de “barco em barco” e foi dos poucos caciques a não naufragar (veja linha do tempo). Também tem passado imune pelos processos dos quais foi alvo. O ex-deputado Eduardo Cunha, que presidiu a Câmara dos Deputados no mesmo período, por exemplo, está preso desde 2016 por causa da Lava-Jato.




Em 2007, Renan chegou a renunciar à presidência do Senado para evitar a cassação do mandato. Primeiro, foi acusado de ter despesas pagas por lobista da construtora Mendes Júnior, que bancava as contas de relacionamento extraconjugal do senador. Depois, de comprar rádios e um jornal de Alagoas em nome de laranjas.




Em 2016, foi temporariamente afastado da presidência do Senado pelo STF por causa do processo relacionado ao caso extraconjungal, no qual acabou absolvido no ano passado. Em um dos processos envolvendo o senador, a Lava-Jato apontou envolvimento de Renan com o recebimento de mais de R$ 1 milhão em propina no esquema da Guerra dos Portos, além de lavagem de dinheiro.




O senador também esteve em meio a polêmicas que envolvem empresas-fantasma, uso de avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para ir a festas e outras tantas já arquivadas. Mesmo depois das denúncias, conseguiu se reeleger mais duas vezes presidente do Senado e agora, no início de seu quarto mandato, volta a ser tratado como forte candidato ao comando da Casa legislativa, onde pode completar 32 anos de atividade parlamentar.



Linha do Tempo - Renan Calheiros – Um highlander da política brasileira



1978



Aos 23 anos, é eleito deputado estadual em Alagoas pelo MDB, partido de oposição ao regime militar. Era opositor do prefeito de Maceió, Fernando Collor, a quem se referia como “prefeito sem cheiro de voto e de povo” e “príncipe herdeiro da corrupção”.



1989



Deputado federal e filiado ao PRN, Renan assume a assessoria da campanha do então candidato à Presidência Fernando Collor de Melo (PRN), eleito com 42,7% dos votos.



1990



Renan era líder de governo na Câmara e foi um dos que anunciaram o Plano Collor, reforma econômica para controlar o aumento da inflação que confiscou as poupanças.



1992



Depois de perder a eleição ao governo de Alagoas e romper com Collor, Renan se torna um dos articuladores do impeachment, acusando o tesoureiro Paulo César Farias de criar “governo paralelo”. Desde então, voltaram a se aliar e a romper novamente, agora, quando Collor entrou na disputa pelo governo de Alagoas, concorrendo com Renanzinho.



1994



No governo Itamar Franco (1992-1994), o político assumiu cargo de confiança na Petrobras e atuou mais nos bastidores, até retomar o protagonismo no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).



PATROCINADORES

1998



Então senador pelo PMDB, Renan toma posse como ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso (FHC).



2002



Nas eleições de 2002, passa a ser aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nos governos do PT, o alagoano, natural de Murici, presidiu o Senado por quatro vezes.



2007



Renan renuncia à presidência do Senado para evitar a cassação. Ele foi acusado de ser sócio, por meio de laranjas, de duas rádios e um jornal de Alagoas e também de ter despesas de “relacionamento extraconjugal” pagas por um lobista da Mendes Júnior.



2013



Retorna à presidência do Senado para cumprir seu quarto mandato como presidente.



2015



Um delator da Operação Lava-Jato afirma, em março, que Renan recebeu propina em contratos da Petrobras. Relação com a presidente Dilma fica estremecida, mas, em agosto, o senador propõe a Agenda Brasil, série de medidas para tirar o país da crise.



2016



No comando do Senado, Renan vota pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT). Entretanto, contribuiu para que senadores rejeitassem a inabilitação da ex-presidente, que manteve o direito de assumir cargos públicos depois do afastamento. Em dezembro, ele é denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro na Operação Lava-Jato. Ele teria recebido propina no esquema conhecido como “Guerra dos Portos”. No mesmo mês, o STF o afasta da presidência do Senado. A decisão é revista em plenário e ele se mantém no cargo, mas sai da linha sucessória do Palácio do Planalto.



2017



Renan foi condenado por “enriquecimento ilícito” e “vantagem patrimonial” pela 14ª Vara Federal de Brasília. Caso se relaciona ao pagamento de pensão em um relacionamento extraconjugal. Ele consegue absolvição no ano seguinte.



2018



Com 621,5 mil votos, o senador é reeleito em outubro para seu quarto mandato. Ele ficou com a segunda vaga à Casa Legislativa, atrás de Rodrigo Cunha (PSDB), que teve 895,7 mil votos. Em novembro, nas investigações da Operação Lava-Jato, a Polícia Federal aponta que 3 milhões de dólares em contas na Suíça estariam ligadas a Renan.



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