COVID-19: médicos de MG assinam manifesto contra uso de cloroquina

Publicado por Tv Minas em 17/01/2021 às 19h38

Documento foi assinado por 300 especialistas, que defenderam o isolamento social, investimentos na saúde e na produção de vacinas.

 

Um manifesto assinado por 300 médicos de Minas Gerais reprovou o uso de medicamentos sem eficácia comprovada contra a COVID-19, como a hidroxicloroquina, ivermectina, cloroquina, entre outros que fazem parte do chamado “tratamento precoce”. No documento, os especialistas defenderam outras medidas para conter a pandemia no Brasil.

 

Os especialistas disseram que as entidades médicas devem buscar atuar junto às outras entidades de saúde em busca de uma política que, verdadeiramente, enfrente a pandemia, como o distanciamento social, investimentos maciços no Sistema Único de Saúde (SUS) e na capacidade brasileira de produção de vacinas.

 

Na visão dos médicos, a prescrição de substâncias sem comprovação científica é “charlatanismo”.

 

“Esse cenário nos coloca como partícipes de uma política cruel, que finge que trata, enquanto deixa as pessoas morrerem”, diz o documento.

 

 

Em busca de respostas


Na última quinta-feira (14/01), o Ministério da Saúde lançou o TratCOV, um aplicativo que estimula a prescrição de remédios sem eficácia contra a COVID-19.

 

Desde então, ex-dirigentes do Conselho Federal de Medicina (CFM) pediram que a entidade se manifestasse sobre a condução da pandemia pelo governo federal.

 

No mesmo dia, o CFM divulgou um documento que reconhece as vacinas aprovadas em diversos países como conquista que "traz esperança para superação dessa crise sanitária", saindo em defesa dos imunizantes.

 

O comunicado, no entanto, não mencionou o TratCOV e nem abordou diretamente os chamados "tratamentos precoces" da doença.

 

Em nota enviada ao Estado de Minas, o Conselho Federal de Medicina afirmou que o posicionamento sobre a vacinação não é uma uma resposta à carta elaborada pelos ex-dirigentes da autarquia e que a divulgação do documento após as cobranças é fruto de coincidência.
 
"(O documento)" é o desdobramento de um relatório técnico sobre a eficácia e segurança das vacinas disponibilizado na sexta-feira (08/01). Na sequência, os técnicos começaram a trabalhar no texto sobre as vacinas, que ontem, na primeira reunião da plenária do ano, foi colocado para avaliação e aprovado.

 

Sobre o aplicativo de prescrição de remédios sem eficácia contra o coronavírus, o TratCOV, o órgão afirmou que vai solicitar uma análise da ferramenta.

 

Contudo, ponderou que "condiciona uso de cloroquina e hidroxicloroquina a critério médico e consentimento do paciente, conforme o parecer 04/2020, onde reforça a falta de evidências sólidas de que essas drogas na prevenção e no tratamento da COVID-19. 

 

 

Cloroquina não tem eficácia comprovada no tratamento contra a COVID-19.

 

 

Leia, na íntegra, o manifesto


"Uma tragédia se abate sobre o Brasil. Uma tragédia humanitária sem precedentes na nossa história. Já superamos 200.000 mortos. Milhões de infectados. UTI’s e leitos hospitalares no limite de suas capacidades, chegando ao absurdo do que está ocorrendo em Manaus, com a falta de oxigênio. A este quadro dramático, soma-se o aumento da miséria e do desemprego.

 

O aumento de famílias vivendo nas ruas é visível a todos. A fome é um espectro que ronda milhões de brasileiros. E qual a resposta deste governo a esta calamidade? Frente a essa situação dantesca, o governo acaba com o auxílio emergencial, o que levará ao desespero aqueles que o têm como única fonte de renda para a sobrevivência. E, no enfrentamento da pandemia da covid-19, oferece tratamentos sem eficácia clínica comprovada.

 

Nós, médicas e médicos mineiros, que já estivemos na liderança de entidades médicas ou que estamos na linha de frente do atendimento à saúde da população ou no ensino médico, resolvemos dar nosso grito de alerta. Não podemos nos calar diante da omissão das nossas principais entidades, Conselhos, Associações e Sindicatos Médicos.

 

A Medicina é uma profissão a serviço da vida e da sociedade. Tem uma história de 2.500 anos, como Ciência e Arte. Como Ciência, a Medicina deve se ater às medicações comprovadamente eficazes. Ciência é a defesa da vacinação para todos, para controlar a circulação do vírus.

 

Afirmar, como faz o CFM, o caráter não obrigatório da vacina, não é ciência. Reforça a política negacionista deste desgoverno. E como Arte, médicas e médicos devem cumprir seu papel em saber informar aos pacientes que, infelizmente, ainda não há medicamentos com comprovação científica para o tratamento da covid-19.

 

A aceitação de nossas lideranças do uso de medicamentos que, comprovadamente, não trazem benefícios, nem preventivo e nem curativo, é uma afronta a estes princípios. CHEGA! Temos de dizer em alto e bom som: a prescrição de ivermectina, cloroquina, hidroxicloroquina, nitazoxanida, azitromicina, doxiciclina, e outros não traz NENHUM benefício aos pacientes.

 

Ao contrário, leva a uma falsa sensação de segurança à população, com o consequente relaxamento nas medidas preventivas, estas sim, eficazes. A aceitação deste papel de meros prescritores de placebos nos nivela a charlatões. E nos tornam cúmplices de um governo de incompetentes, genocida. BASTA! A literatura médica atual demonstra de maneira consistente a ineficácia destas drogas, além dos seus riscos.

 

Médicas e Médicos, não aceitem este papel a nós reservado por este desgoverno! Entidades médicas, se posicionem claramente ao lado da Ciência e da Vida! Os médicos, por meio do CFM e dos CRM, devem ser orientados a não prescreverem medicamentos que não têm comprovação científica. Tal orientação e inibição dessas prescrições se sobrepõem a autonomia do profissional médico. A autonomia médica não é um aval para a antimedicina.

 

A prescrição destes medicamentos não é uso off-label: é anti-ciência, é charlatanismo. Esse cenário nos coloca como partícipes de uma política cruel, que finge que trata, enquanto deixa as pessoas morrerem. Conclamamos que as Entidades Médicas busquem atuar junto às outras entidades de saúde, em defesa de uma política que verdadeiramente enfrente esta barbárie:

 

- Distanciamento social; auxílio aos vulneráveis;

 

- Investimentos maciços no Sistema Único de Saúde, para recuperação imediata de sua capacidade de atendimento;

 

- E investimentos maciços na capacidade brasileira de produção de vacinas. Esta é a resposta a se esperar de quem tem compromissos com a Medicina e com a Vida.


Belo Horizonte, Minas Gerais, 15 de janeiro de 2021."

 

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