A nova era da Tesla: da montadora de carros ao império da robótica e IA
Quem ainda associa a Tesla exclusivamente à venda de veículos elétricos pode estar perdendo a verdadeira dimensão dos planos de Elon Musk. A companhia atravessa um momento decisivo de transformação, deixando de ser uma montadora tradicional para se posicionar como uma gigante de tecnologia focada em inteligência artificial e robótica. Essa mudança de paradigma foi reforçada tanto pelas declarações ambiciosas de Musk quanto pela análise de investidores de peso, como Cathie Wood, CEO da Ark Invest. O foco agora se divide entre o robô humanoide Optimus e a promessa lucrativa dos robotáxis.
A aposta trilionária no Optimus
Durante a recente reunião anual de acionistas realizada em Austin, no Texas, Musk foi categórico ao afirmar que a empresa está prestes a iniciar o maior capítulo de sua história. O protagonista dessa nova fase é o Optimus, o robô humanoide que, segundo o bilionário, fará o valor de mercado da Tesla “explodir”. As projeções apresentadas são superlativas: Musk acredita que a tecnologia levará a companhia a valer US$ 25 trilhões.
Para colocar em perspectiva, esse montante representa cerca de oito vezes o valor atual da Apple. Hoje, a Tesla é avaliada em aproximadamente US$ 580 bilhões, ocupando a décima posição entre as maiores empresas do mundo. Embora não tenha estipulado uma data exata para atingir essa cifra astronômica, o empresário garantiu que a produção limitada do Optimus começará já em 2025. A meta é ter mais de mil unidades operando dentro das próprias fábricas da Tesla no próximo ano, assumindo tarefas repetitivas nas linhas de montagem.
Desafios de produção e evolução tecnológica
A trajetória do projeto tem sido rápida, mas não isenta de obstáculos. Anunciado no “AI Day” de 2021 — numa apresentação que virou meme porque um humano dançou vestido de robô —, o projeto ganhou contornos sérios em maio de 2023, quando a empresa exibiu protótipos funcionais capazes de caminhar e manipular objetos de forma autônoma. Contudo, a produção em escala enfrenta gargalos técnicos, principalmente no fornecimento de atuadores, componentes essenciais para converter energia em movimento mecânico e garantir a precisão dos robôs.
A visão de Wall Street: margens de lucro de software
Enquanto Musk foca no hardware humanoide, o mercado financeiro começa a recalibrar suas expectativas com base no potencial de software da empresa. Cathie Wood, gestora do fundo ARK Innovation ETF (onde a Tesla é a principal posição), argumentou em entrevista à CNBC que a percepção sobre a companhia está mudando fundamentalmente. Para a investidora, o mercado de veículos elétricos enfrenta pressão, mas a verdadeira “mina de ouro” reside na oportunidade dos robotáxis.
Wood desenha um cenário de transformação no modelo de negócios: a Tesla está migrando de margens brutas típicas do setor automotivo, que giram em torno de 15%, para um modelo de “Software como Serviço” (SaaS). Com a implementação dos robotáxis, a expectativa é que esse serviço gere receitas recorrentes com margens impressionantes, situadas entre 70% e 80%. Segundo a analista, até mesmo analistas automotivos tradicionais estão elevando suas recomendações de compra, pois passaram a colaborar com equipes de tecnologia para compreender a complexidade e o potencial dessa nova vertente.
Corrida autônoma e regulação
A competição no setor de direção autônoma também serve como catalisador. Wood aponta que a rivalidade com a Waymo, especialmente visível nas ruas do Texas, não é um problema, mas um acelerador de inovação. A gestora acredita que a implementação de frotas autônomas e robôs humanoides acontecerá muito mais rápido do que o consenso de mercado prevê, apesar das barreiras financeiras e tecnológicas.
Um fator que pode destravar esse crescimento é o cenário regulatório em Washington. A existência de uma legislação federal unificada para veículos autônomos poderia acelerar drasticamente a adoção dos robotáxis em todo o território americano. Se esse cenário otimista se concretizar, a Tesla passará por uma reavaliação completa de preço, descolando-se definitivamente dos múltiplos de uma fabricante de carros para ser precificada como a líder global em automação e inteligência artificial.